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sexta-feira, 5 de março de 2010

Brasil deixa de arrecadar R$ 50 milhões anuais ao exportar gado em pé

Atualmente, o Brasil tem no porto do Pará o principal estado exportador de bovinos vivos. No último ano, o maior comprador foi o Líbano, que importou cerca de 400 mil cabeças, a um preço de R$ 367 milhões. Exportando animais vivos, o Brasil deixou de arrecadar 14% a mais, caso exportasse a carne congelada e o couro processado, como faz para outros mercados.
As informações fazem parte do estudo Desvantagens da Exportação de Gado em Pé, realizado pelo economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro Reinaldo Gonçalves, encomendado pela WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal).
O economista aponta as desvantagens, para a cadeia produtiva nacional, da exportação de matéria-prima e aponta que o setor de produção de couro, as indústrias de alimentos e farmacêutica também deixaram de ganhar milhões. Caso os animais fossem abatidos no País, o valor gerado seria de R$ 418 milhões, R$ 50 milhões a mais que o obtido com a exportação dos animais vivos.
"O deslocamento da produção de gado para o exterior (exportação) afeta negativamente a oferta doméstica desse produto no mercado interno e reduz o potencial de geração de valor agregado, ou seja, de renda interna e emprego no País", afirma o autor.
Abaixo, a tabela de projeções, realizada pelo economista, caso o País processasse a carne, ao invés de exportar gado vivo.

Além dos prejuízos econômicos, o estudo também aponta para o sofrimento ao qual os bovinos são sumetidos. "Confinados em ambientes impróprios e em condições de superlotação, os animais têm que suportar mudanças extremas de temperatura e ventilação. Além disso, experimentam estresse e exaustão pelo manejo inadequado", descreve.
A taxa de mortalidade nos navios pode chegar a 10% durante a viagem, de até 21 dias, causada por desidratação, traumas e doenças respiratórias. Além disso, é cientificamente comprovado que o transporte por longas distâncias gera perdas na carcaça e altera a qualidade da carne.
A viagem sem fiscalização sobre o transporte é dolorosa para os bovinos. São usados bastões elétricos para conduzi-los, equipamento proibido em qualquer auditoria de bem-esta animal. "Esmagados contra animais estranhos, que não pertencem ao seu círculo social, podem sofrer ferimentos".
O estudo atenta ainda para o fato do Brasil possuir frigoríficos credenciados a produzir a carne Halal, o alimento permitido na religião islâmica, o que possibilitaria a exportação de carne congelada para o Líbano, em substituição à venda de animais vivos.
Gonçalves finaliza seu estudo sugerindo que as metas do Fórum de Competitividade da Indústria de Carnes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior sejam atendidas. Uma delas é trabalhar na geração de produtos com maior valor agregado.
“A exportação de bovinos deve ser substituída pela exportação de carne, couro e subprodutos. Os inúmeros problemas associados à exportação de gado em pé são evidências categóricas da ineficiência desse tipo de comércio, especialmente para um país em forte desenvolvimento como o Brasil”, conclui o estudo.
O assunto virou tema de uma campanha da WSPA em 2008. Após dois anos de filmagens com câmeras escondidas no interior dos navios, a organização lançou vídeos e elaborou um site, onde coletou assinaturas contra o transporte de gado em pé.
Para a campanha, elaborou dois vídeos (parte um e parte dois) sobre o transporte dos animais na rota Pará-Beirute.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Bem-estar para garantir mercados


Produzir carne garantindo bem-estar aos animais não é apenas uma questão de qualidade e aumento da lucratividade na produção – também está ligado à manutenção de mercados exportadores.
Há quase dez anos, garantir bem-estar aos animais de produção é prioridade na União Europeia (UE) e no Reino Unido. O Brasil, que tem no bloco um dos maiores mercados para o escoamento da carne bovina produzida aqui, tem motivos para se preocupar. Cerca de 80% dos consumidores europeus acreditam que são responsáveis pelo bem-estar dos animais que consomem e 89% deles acreditam que a produção da carne importada deve seguir as mesmas regras de bem-estar aplicadas pelos produtores europeus, de acordo com pesquisa realizada pela Comissão Europeia, a Eurobarometer
.
Para o Ministério da Agricultura brasileiro, adequar a produção nacional a boas práticas de manejo pode evitar sanções comerciais. “Bem-estar animal é uma questão estratégica para garantir mercados atuais e abrir espaço em novos. O Brasil, como país exportador, tem que garantir bem-estar, porque ele está ligado à qualidade, à segurança do produto e a boas práticas agropecuárias”, afirma a fiscal federal agropecuária da Comissão Técnica de Bem-estar Animal, Andrea Parrilla.
As sanções às quais Andrea se refere são uma realidade com a qual se preocupar. Propostas sobre possíveis barreiras tarifárias a países que não produzam com os mesmos critérios de bem-estar animal do bloco foram apresentadas pelos europeus na OMC (Organização Mundial do Comercio). O Brasil, porém, mostra-se contrário a quaisquer tipos de sanções.
“A UE está perdendo poder de subsídio. Acreditamos que o bloco pode tentar transformar bem-estar animal em barreira comercial, mas desenvolvemos trabalhos nos precavendo a isso. O Ministério acredita que precisamos ter parâmetros estudados e validados no Brasil, de acordo com a realidade brasileira”, afirma Andréa.
Para a fiscal, se o país tiver base científica atestando que os animais estão sendo bem cuidados, terá argumento equivalente nas discussões sobre o assunto.